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domingo, 14 de março de 2010
paleta de palavras lxxxvi
O em um
«O amor amado é um peso-pesado,
um presente inconstantemente ausente,
momentâneo, trajado, como a felicidade inconsciente,
duplamente fugaz, rochado em rostos e toques passados,
sobejado em fugas e tactos actualizados,
rodeado de olhares constâncios, quedivos,
condenados ao futuro, sem paz, repetidos,
cheios de memória e esperança num final regressado,
sem fim, o fim, último, que com sombra do passado,
termina na companhia do outro, consorte do mundo,
e na réstia da festa do corpo separado... ou moribundo.»
Miguel Pessoa Campomaior, in "Poesias Urbanas".
paleta de palavras lxxxvi
O em um
«O amor amado é um peso-pesado,
um presente inconstantemente ausente,
momentâneo, trajado, como a felicidade inconsciente,
duplamente fugaz, rochado em rostos e toques passados,
sobejado em fugas e tactos actualizados,
rodeado de olhares constâncios, quedivos,
condenados ao futuro, sem paz, repetidos,
cheios de memória e esperança num final regressado,
sem fim, o fim, último, que com sombra do passado,
termina na companhia do outro, consorte do mundo,
e na réstia da festa do corpo separado... ou moribundo.»
Miguel Pessoa Campomaior, in "Poesias Urbanas".
segunda-feira, 20 de julho de 2009
paleta de palavras lxxv
paleta de palavras lxxv
quarta-feira, 24 de junho de 2009
paleta de palavras lxxiv
Para quem o viu, recordará com certeza o filme "Slumdog Millionaire".
paleta de palavras lxxiv
Para quem o viu, recordará com certeza o filme "Slumdog Millionaire".
domingo, 24 de maio de 2009
paleta de palavras LXXIII
Julgo que é a segunda vez que coloco esta música no blogue. Também não será a última, asseguro-vos. Pode ser a última terceira, a última quarta, enfim, o que a saúde e o o mau temperamento permitir, e o mundo exigir... mas não será a última segunda vez. Desta vez foi o mundo, essa massa anónima de teias humanas, seres vivos metafóricos em período de transformação para um mundo aracnídeo. Cada vez mais tecidas e fatais, as redes vão rastreando e apagando as pegadas, de tudo o que passa ou quer passear. Os primeiros hoje, os últimos de outrora. Em devir enrodilhado, todos querem ser primeiros, estar em primeiros, parecer primeiros, com o físico em 1 e a fazer "play" em todos os neo-objectos da pós-modernidade. Não há volta por onde se pode pegar nesta rede enredada na sua própria teia. Estamos todos enrolados nela e, sem se saber, continuamos alegremente a tecê-la, para gáudio público e pessoal das palavras narcisistas da nova bíblia contemporânea - a Internet. E que maravilhosa ferramenta! Embebeda-nos de auto-recriação e de talento, e convencimento de que estamos mais protegidos e seguros e somos únicos e diferentes. E que alguém nos oiça. E é a verdade, já não nos ouvimos apenas a nós próprios. Há sempre mais alguém que sabe das nossas palavras, com prejuízo natural do seu sentido, mas isso pouco importa. O sentido pouco ou nada revela o que o outro quer comunicar, as suas palavras, e assim viciosamente, o círculo se compõe, a teia se vislumbra e a rede se completa. Até que, quando o tempo e a vontade se encontram com a acção, a teia estica, vibra e revira-se, numa tremulada estonteante, ao som de momentos sonoros, iluminados, que duram apenas 6 minutos, mas não nos deixa repetir o mesmo acto duas vezes. Não há vezes iguais. Da primeira à última.
paleta de palavras LXXIII
Julgo que é a segunda vez que coloco esta música no blogue. Também não será a última, asseguro-vos. Pode ser a última terceira, a última quarta, enfim, o que a saúde e o o mau temperamento permitir, e o mundo exigir... mas não será a última segunda vez. Desta vez foi o mundo, essa massa anónima de teias humanas, seres vivos metafóricos em período de transformação para um mundo aracnídeo. Cada vez mais tecidas e fatais, as redes vão rastreando e apagando as pegadas, de tudo o que passa ou quer passear. Os primeiros hoje, os últimos de outrora. Em devir enrodilhado, todos querem ser primeiros, estar em primeiros, parecer primeiros, com o físico em 1 e a fazer "play" em todos os neo-objectos da pós-modernidade. Não há volta por onde se pode pegar nesta rede enredada na sua própria teia. Estamos todos enrolados nela e, sem se saber, continuamos alegremente a tecê-la, para gáudio público e pessoal das palavras narcisistas da nova bíblia contemporânea - a Internet. E que maravilhosa ferramenta! Embebeda-nos de auto-recriação e de talento, e convencimento de que estamos mais protegidos e seguros e somos únicos e diferentes. E que alguém nos oiça. E é a verdade, já não nos ouvimos apenas a nós próprios. Há sempre mais alguém que sabe das nossas palavras, com prejuízo natural do seu sentido, mas isso pouco importa. O sentido pouco ou nada revela o que o outro quer comunicar, as suas palavras, e assim viciosamente, o círculo se compõe, a teia se vislumbra e a rede se completa. Até que, quando o tempo e a vontade se encontram com a acção, a teia estica, vibra e revira-se, numa tremulada estonteante, ao som de momentos sonoros, iluminados, que duram apenas 6 minutos, mas não nos deixa repetir o mesmo acto duas vezes. Não há vezes iguais. Da primeira à última.
domingo, 10 de maio de 2009
PALETA DE PALAVRAS LXXII
"Signs" - de Patrick Hughes
PALETA DE PALAVRAS LXXII
"Signs" - de Patrick Hughes
sábado, 7 de fevereiro de 2009
PALETA DE PALAVRAS LXXI
«Se os homens fossem anjos, não seria necessário qualquer governo. Se os anjos governassem os homens, não seriam necessários controlos externos nem internos sobre o governo.»
James Madison, The Federalist Papers
É madisoniano ou rousseauniano?
James Madison, The Federalist Papers
É madisoniano ou rousseauniano?
PALETA DE PALAVRAS LXXI
«Se os homens fossem anjos, não seria necessário qualquer governo. Se os anjos governassem os homens, não seriam necessários controlos externos nem internos sobre o governo.»
James Madison, The Federalist Papers
É madisoniano ou rousseauniano?
James Madison, The Federalist Papers
É madisoniano ou rousseauniano?
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
PALETA DE PALAVRAS LXX
"Esse controlo [do financiamento dos partidos] e essa transparência terão um impacto positivo na qualidade da nossa democracia, afastarão suspeitas indesejadas, promoverão a discussão política e contribuirão para a separação do trigo do joio.
Hoje, como ontem, a questão central do financiamento da actividade dos partidos e dos políticos é a de saber se o sistema político controla o dinheiro ou se é o dinheiro que controla o sistema político."
António José Seguro, Expresso, 1 de Março de 2008
Hoje, como ontem, a questão central do financiamento da actividade dos partidos e dos políticos é a de saber se o sistema político controla o dinheiro ou se é o dinheiro que controla o sistema político."
António José Seguro, Expresso, 1 de Março de 2008
PALETA DE PALAVRAS LXX
"Esse controlo [do financiamento dos partidos] e essa transparência terão um impacto positivo na qualidade da nossa democracia, afastarão suspeitas indesejadas, promoverão a discussão política e contribuirão para a separação do trigo do joio.
Hoje, como ontem, a questão central do financiamento da actividade dos partidos e dos políticos é a de saber se o sistema político controla o dinheiro ou se é o dinheiro que controla o sistema político."
António José Seguro, Expresso, 1 de Março de 2008
Hoje, como ontem, a questão central do financiamento da actividade dos partidos e dos políticos é a de saber se o sistema político controla o dinheiro ou se é o dinheiro que controla o sistema político."
António José Seguro, Expresso, 1 de Março de 2008
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
PALETA DE PALAVRAS LXIX
«O mundo inteiro a fugir,
O mundo inteiro a pedir.
Que se oiça alto o teu Não.»
"A Cada Não Que Dizes", Pedro Abrunhosa, no álbum Luz (2007)
O mundo inteiro a pedir.
Que se oiça alto o teu Não.»
"A Cada Não Que Dizes", Pedro Abrunhosa, no álbum Luz (2007)
PALETA DE PALAVRAS LXIX
«O mundo inteiro a fugir,
O mundo inteiro a pedir.
Que se oiça alto o teu Não.»
"A Cada Não Que Dizes", Pedro Abrunhosa, no álbum Luz (2007)
O mundo inteiro a pedir.
Que se oiça alto o teu Não.»
"A Cada Não Que Dizes", Pedro Abrunhosa, no álbum Luz (2007)
sexta-feira, 9 de maio de 2008
PALETA DE PALAVRAS LXVIII
"A propósito do livro O Poder: Uma Nova Análise Social, de Bertrand Russell, George Orwell comenta: "descemos a um ponto tal que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes" (1939, p. 107). Que sem um ensino de qualidade não é possível existir investigação de qualidade é uma dessas verdades óbvias que infelizmente é hoje preciso defender, explicar e reafirmar. O desprezo pela excelência do ensino é grave nas universidades que lideram a investigação a nível mundial (Stuntz, 2006), mas é caricato nas universidades que em nada contribuem efectivamente para o avanço do conhecimento da humanidade."
Desidério Murcho
http://criticanarede.com/
Desidério Murcho
http://criticanarede.com/
PALETA DE PALAVRAS LXVIII
"A propósito do livro O Poder: Uma Nova Análise Social, de Bertrand Russell, George Orwell comenta: "descemos a um ponto tal que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes" (1939, p. 107). Que sem um ensino de qualidade não é possível existir investigação de qualidade é uma dessas verdades óbvias que infelizmente é hoje preciso defender, explicar e reafirmar. O desprezo pela excelência do ensino é grave nas universidades que lideram a investigação a nível mundial (Stuntz, 2006), mas é caricato nas universidades que em nada contribuem efectivamente para o avanço do conhecimento da humanidade."
Desidério Murcho
http://criticanarede.com/
Desidério Murcho
http://criticanarede.com/
domingo, 17 de fevereiro de 2008
PALETA DE PALAVRAS LXVII
La Vanguardia
11-02-2008
"Cheguei a um ponto em que era mais feliz louco que são",
John Forbes Nash, prémio Nobel de Economia,
cientista esquizofrénico e que inspirou o filme "Uma Mente Brilhante"
«"É um génio": foram as três palavras com que o recomendaram a
Princeton. Sua irmã, ao saber, acrescentou: "É muito estranho". Aos 21
anos, enunciou a tese de equilíbrio que desbancou Adam Smith e fundou
a economia moderna. Participou como cientista militar até o delírio
-literal- na Guerra Fria que sua esquizofrenia paranóica simboliza à
perfeição: acabou acreditando ser perseguido por conspiradores
comunistas. Internado depois de uma crise psicótica, passou 30 anos
alheio, vagando pelo campus de Princeton, onde o apelidaram de o
fantasma. Conseguiu recuperar a sanidade de forma milagrosa e
suficiente para receber o prêmio Nobel em 1994.
Tenho 79 anos. Nasci na Virgínia Ocidental. Tenho dois filhos: estive
casado, deixei de estar e agora volto a estar. As estatísticas
demonstram que é melhor estar casado. Seria penoso explicar toda a
minha evolução religiosa. Votar é fácil e pouco. Colaboro com a
Universidade Pompeu Fabra (Barcelona). A entrevista:
La Vanguardia (LV) - Por que lhe deram o prêmio Nobel de Economia?
John Forbes Nash - Descobri uma forma de equilíbrio -hoje chamado de
Nash- na teoria dos jogos: um ponto em que nenhum dos jogadores pode
melhorar sua situação. Hoje esse conceito é aplicado de forma
interdisciplinar.
LV - Fez essa descoberta apesar de sua enfermidade mental?
Nash - Tenho um histórico, sim, de distúrbio mental temporário que se
manifestava de diversas formas. Hoje temos medicamentos que na época
não existiam, que tratam os sintomas e permitem continuar com o que se
considera uma vida normal, mas têm efeitos indesejáveis.
LV - Quais?
Nash - Para restituir sua normalidade, reduzem sua atividade
neurológica e suas funções cognitivas. O devolvem à normalidade, sim,
mas às custas de sua capacidade pessoal de raciocínio.
LV - E hoje o senhor o exerce integralmente?
Nash - Eu posso trabalhar, mas meu filho, que também sofre esse
distúrbio, toma esse medicamento que não lhe permite se dedicar a nada
concretamente; mas pode observar um comportamento normal.
LV - Como se manifestou esse transtorno?
Nash - Tive de ser internado em um hospital depois de vários episódios
de disfunção social, e afinal melhorei, mas não pude evitar um poço de
infelicidade em meu ânimo e em minha conduta.
LV - A que se refere?
Nash - Era infeliz ao me recuperar, porque a normalidade não me
deixava feliz. A loucura começa quando você descobre uma segunda
realidade em sua mente e às vezes a prefere, porque o faz mais feliz
que a normalidade. Assim, cheguei a um ponto em que eu era mais feliz
louco do que são.
LV - Mas era capaz de distinguir entre a realidade e sua ilusão?
Nash - Chega um momento em que fica difícil distingui-las e você vai
escolhendo cada vez mais a ilusória. Assim se transforma em
disfuncional.
LV - Disfuncional em que sentido?
Nash - É natural que um ser humano deva atuar com o resto do grupo:
trabalhar, observar as normas, comportar-se como todos...
LV - Há exceções.
Nash - Correto. Suponhamos que eu não trabalhe nem seja rico e diga
que ouço vozes, tenho visões e as desenho ou escrevo: o que você
pensaria?
LV - Talvez sugira que poderiam interná-lo.
Nash - Suponhamos que eu lhe diga que sou um monge enclausurado. Você
aceitaria que uma freira ou um monge em seu convento pode não
trabalhar, ter visões e explicá-las, no entanto esse monge não será
considerado anormal por isso.
LV - Certamente.
Nash - A sociedade os aceita porque, fora eles, há muitos e
suficientes outros homens e mulheres que se comportam de forma normal.
LV - A maioria tem senso comum.
Nash - Falso. O senso comum não é majoritário: por exemplo, na
Espanha e no Ocidente o cristianismo é a religião majoritária...
LV - Continua sendo, sim.
Nash - ... mas o cristianismo exige de seus fiéis fé cega em dogmas
que em caso algum poderiam ser considerados senso comum.
LV - A trindade ou a virgindade de Maria.
Nash - Hoje eu vi a obra de Gaudí: magnífica.
LV - Sem dúvida.
Nash - Apesar de não conhecer sua vida, tenho certeza de que foi
considerado um anormal, um louco.
LV - Creio lembrar-me que sim.
Nash - Van Gogh também tinha problemas para discernir a realidade de
suas visões. O que me pergunto é se a medicação que temos hoje teria
sido capaz de devolver a normalidade a Van Gogh sem privá-lo de seu
talento.
LV - ...
Nash - No entanto, o progresso teria sido difícil sem as visões de Van
Gogh ou o autismo de Newton. Newton também foi considerado um tipo
suspeito: não se casou, era estranho...
(continua aqui)
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
11-02-2008
"Cheguei a um ponto em que era mais feliz louco que são",
John Forbes Nash, prémio Nobel de Economia,
cientista esquizofrénico e que inspirou o filme "Uma Mente Brilhante"
«"É um génio": foram as três palavras com que o recomendaram a
Princeton. Sua irmã, ao saber, acrescentou: "É muito estranho". Aos 21
anos, enunciou a tese de equilíbrio que desbancou Adam Smith e fundou
a economia moderna. Participou como cientista militar até o delírio
-literal- na Guerra Fria que sua esquizofrenia paranóica simboliza à
perfeição: acabou acreditando ser perseguido por conspiradores
comunistas. Internado depois de uma crise psicótica, passou 30 anos
alheio, vagando pelo campus de Princeton, onde o apelidaram de o
fantasma. Conseguiu recuperar a sanidade de forma milagrosa e
suficiente para receber o prêmio Nobel em 1994.
Tenho 79 anos. Nasci na Virgínia Ocidental. Tenho dois filhos: estive
casado, deixei de estar e agora volto a estar. As estatísticas
demonstram que é melhor estar casado. Seria penoso explicar toda a
minha evolução religiosa. Votar é fácil e pouco. Colaboro com a
Universidade Pompeu Fabra (Barcelona). A entrevista:
La Vanguardia (LV) - Por que lhe deram o prêmio Nobel de Economia?
John Forbes Nash - Descobri uma forma de equilíbrio -hoje chamado de
Nash- na teoria dos jogos: um ponto em que nenhum dos jogadores pode
melhorar sua situação. Hoje esse conceito é aplicado de forma
interdisciplinar.
LV - Fez essa descoberta apesar de sua enfermidade mental?
Nash - Tenho um histórico, sim, de distúrbio mental temporário que se
manifestava de diversas formas. Hoje temos medicamentos que na época
não existiam, que tratam os sintomas e permitem continuar com o que se
considera uma vida normal, mas têm efeitos indesejáveis.
LV - Quais?
Nash - Para restituir sua normalidade, reduzem sua atividade
neurológica e suas funções cognitivas. O devolvem à normalidade, sim,
mas às custas de sua capacidade pessoal de raciocínio.
LV - E hoje o senhor o exerce integralmente?
Nash - Eu posso trabalhar, mas meu filho, que também sofre esse
distúrbio, toma esse medicamento que não lhe permite se dedicar a nada
concretamente; mas pode observar um comportamento normal.
LV - Como se manifestou esse transtorno?
Nash - Tive de ser internado em um hospital depois de vários episódios
de disfunção social, e afinal melhorei, mas não pude evitar um poço de
infelicidade em meu ânimo e em minha conduta.
LV - A que se refere?
Nash - Era infeliz ao me recuperar, porque a normalidade não me
deixava feliz. A loucura começa quando você descobre uma segunda
realidade em sua mente e às vezes a prefere, porque o faz mais feliz
que a normalidade. Assim, cheguei a um ponto em que eu era mais feliz
louco do que são.
LV - Mas era capaz de distinguir entre a realidade e sua ilusão?
Nash - Chega um momento em que fica difícil distingui-las e você vai
escolhendo cada vez mais a ilusória. Assim se transforma em
disfuncional.
LV - Disfuncional em que sentido?
Nash - É natural que um ser humano deva atuar com o resto do grupo:
trabalhar, observar as normas, comportar-se como todos...
LV - Há exceções.
Nash - Correto. Suponhamos que eu não trabalhe nem seja rico e diga
que ouço vozes, tenho visões e as desenho ou escrevo: o que você
pensaria?
LV - Talvez sugira que poderiam interná-lo.
Nash - Suponhamos que eu lhe diga que sou um monge enclausurado. Você
aceitaria que uma freira ou um monge em seu convento pode não
trabalhar, ter visões e explicá-las, no entanto esse monge não será
considerado anormal por isso.
LV - Certamente.
Nash - A sociedade os aceita porque, fora eles, há muitos e
suficientes outros homens e mulheres que se comportam de forma normal.
LV - A maioria tem senso comum.
Nash - Falso. O senso comum não é majoritário: por exemplo, na
Espanha e no Ocidente o cristianismo é a religião majoritária...
LV - Continua sendo, sim.
Nash - ... mas o cristianismo exige de seus fiéis fé cega em dogmas
que em caso algum poderiam ser considerados senso comum.
LV - A trindade ou a virgindade de Maria.
Nash - Hoje eu vi a obra de Gaudí: magnífica.
LV - Sem dúvida.
Nash - Apesar de não conhecer sua vida, tenho certeza de que foi
considerado um anormal, um louco.
LV - Creio lembrar-me que sim.
Nash - Van Gogh também tinha problemas para discernir a realidade de
suas visões. O que me pergunto é se a medicação que temos hoje teria
sido capaz de devolver a normalidade a Van Gogh sem privá-lo de seu
talento.
LV - ...
Nash - No entanto, o progresso teria sido difícil sem as visões de Van
Gogh ou o autismo de Newton. Newton também foi considerado um tipo
suspeito: não se casou, era estranho...
(continua aqui)
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
PALETA DE PALAVRAS LXVII
La Vanguardia
11-02-2008
"Cheguei a um ponto em que era mais feliz louco que são",
John Forbes Nash, prémio Nobel de Economia,
cientista esquizofrénico e que inspirou o filme "Uma Mente Brilhante"
«"É um génio": foram as três palavras com que o recomendaram a
Princeton. Sua irmã, ao saber, acrescentou: "É muito estranho". Aos 21
anos, enunciou a tese de equilíbrio que desbancou Adam Smith e fundou
a economia moderna. Participou como cientista militar até o delírio
-literal- na Guerra Fria que sua esquizofrenia paranóica simboliza à
perfeição: acabou acreditando ser perseguido por conspiradores
comunistas. Internado depois de uma crise psicótica, passou 30 anos
alheio, vagando pelo campus de Princeton, onde o apelidaram de o
fantasma. Conseguiu recuperar a sanidade de forma milagrosa e
suficiente para receber o prêmio Nobel em 1994.
Tenho 79 anos. Nasci na Virgínia Ocidental. Tenho dois filhos: estive
casado, deixei de estar e agora volto a estar. As estatísticas
demonstram que é melhor estar casado. Seria penoso explicar toda a
minha evolução religiosa. Votar é fácil e pouco. Colaboro com a
Universidade Pompeu Fabra (Barcelona). A entrevista:
La Vanguardia (LV) - Por que lhe deram o prêmio Nobel de Economia?
John Forbes Nash - Descobri uma forma de equilíbrio -hoje chamado de
Nash- na teoria dos jogos: um ponto em que nenhum dos jogadores pode
melhorar sua situação. Hoje esse conceito é aplicado de forma
interdisciplinar.
LV - Fez essa descoberta apesar de sua enfermidade mental?
Nash - Tenho um histórico, sim, de distúrbio mental temporário que se
manifestava de diversas formas. Hoje temos medicamentos que na época
não existiam, que tratam os sintomas e permitem continuar com o que se
considera uma vida normal, mas têm efeitos indesejáveis.
LV - Quais?
Nash - Para restituir sua normalidade, reduzem sua atividade
neurológica e suas funções cognitivas. O devolvem à normalidade, sim,
mas às custas de sua capacidade pessoal de raciocínio.
LV - E hoje o senhor o exerce integralmente?
Nash - Eu posso trabalhar, mas meu filho, que também sofre esse
distúrbio, toma esse medicamento que não lhe permite se dedicar a nada
concretamente; mas pode observar um comportamento normal.
LV - Como se manifestou esse transtorno?
Nash - Tive de ser internado em um hospital depois de vários episódios
de disfunção social, e afinal melhorei, mas não pude evitar um poço de
infelicidade em meu ânimo e em minha conduta.
LV - A que se refere?
Nash - Era infeliz ao me recuperar, porque a normalidade não me
deixava feliz. A loucura começa quando você descobre uma segunda
realidade em sua mente e às vezes a prefere, porque o faz mais feliz
que a normalidade. Assim, cheguei a um ponto em que eu era mais feliz
louco do que são.
LV - Mas era capaz de distinguir entre a realidade e sua ilusão?
Nash - Chega um momento em que fica difícil distingui-las e você vai
escolhendo cada vez mais a ilusória. Assim se transforma em
disfuncional.
LV - Disfuncional em que sentido?
Nash - É natural que um ser humano deva atuar com o resto do grupo:
trabalhar, observar as normas, comportar-se como todos...
LV - Há exceções.
Nash - Correto. Suponhamos que eu não trabalhe nem seja rico e diga
que ouço vozes, tenho visões e as desenho ou escrevo: o que você
pensaria?
LV - Talvez sugira que poderiam interná-lo.
Nash - Suponhamos que eu lhe diga que sou um monge enclausurado. Você
aceitaria que uma freira ou um monge em seu convento pode não
trabalhar, ter visões e explicá-las, no entanto esse monge não será
considerado anormal por isso.
LV - Certamente.
Nash - A sociedade os aceita porque, fora eles, há muitos e
suficientes outros homens e mulheres que se comportam de forma normal.
LV - A maioria tem senso comum.
Nash - Falso. O senso comum não é majoritário: por exemplo, na
Espanha e no Ocidente o cristianismo é a religião majoritária...
LV - Continua sendo, sim.
Nash - ... mas o cristianismo exige de seus fiéis fé cega em dogmas
que em caso algum poderiam ser considerados senso comum.
LV - A trindade ou a virgindade de Maria.
Nash - Hoje eu vi a obra de Gaudí: magnífica.
LV - Sem dúvida.
Nash - Apesar de não conhecer sua vida, tenho certeza de que foi
considerado um anormal, um louco.
LV - Creio lembrar-me que sim.
Nash - Van Gogh também tinha problemas para discernir a realidade de
suas visões. O que me pergunto é se a medicação que temos hoje teria
sido capaz de devolver a normalidade a Van Gogh sem privá-lo de seu
talento.
LV - ...
Nash - No entanto, o progresso teria sido difícil sem as visões de Van
Gogh ou o autismo de Newton. Newton também foi considerado um tipo
suspeito: não se casou, era estranho...
(continua aqui)
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
11-02-2008
"Cheguei a um ponto em que era mais feliz louco que são",
John Forbes Nash, prémio Nobel de Economia,
cientista esquizofrénico e que inspirou o filme "Uma Mente Brilhante"
«"É um génio": foram as três palavras com que o recomendaram a
Princeton. Sua irmã, ao saber, acrescentou: "É muito estranho". Aos 21
anos, enunciou a tese de equilíbrio que desbancou Adam Smith e fundou
a economia moderna. Participou como cientista militar até o delírio
-literal- na Guerra Fria que sua esquizofrenia paranóica simboliza à
perfeição: acabou acreditando ser perseguido por conspiradores
comunistas. Internado depois de uma crise psicótica, passou 30 anos
alheio, vagando pelo campus de Princeton, onde o apelidaram de o
fantasma. Conseguiu recuperar a sanidade de forma milagrosa e
suficiente para receber o prêmio Nobel em 1994.
Tenho 79 anos. Nasci na Virgínia Ocidental. Tenho dois filhos: estive
casado, deixei de estar e agora volto a estar. As estatísticas
demonstram que é melhor estar casado. Seria penoso explicar toda a
minha evolução religiosa. Votar é fácil e pouco. Colaboro com a
Universidade Pompeu Fabra (Barcelona). A entrevista:
La Vanguardia (LV) - Por que lhe deram o prêmio Nobel de Economia?
John Forbes Nash - Descobri uma forma de equilíbrio -hoje chamado de
Nash- na teoria dos jogos: um ponto em que nenhum dos jogadores pode
melhorar sua situação. Hoje esse conceito é aplicado de forma
interdisciplinar.
LV - Fez essa descoberta apesar de sua enfermidade mental?
Nash - Tenho um histórico, sim, de distúrbio mental temporário que se
manifestava de diversas formas. Hoje temos medicamentos que na época
não existiam, que tratam os sintomas e permitem continuar com o que se
considera uma vida normal, mas têm efeitos indesejáveis.
LV - Quais?
Nash - Para restituir sua normalidade, reduzem sua atividade
neurológica e suas funções cognitivas. O devolvem à normalidade, sim,
mas às custas de sua capacidade pessoal de raciocínio.
LV - E hoje o senhor o exerce integralmente?
Nash - Eu posso trabalhar, mas meu filho, que também sofre esse
distúrbio, toma esse medicamento que não lhe permite se dedicar a nada
concretamente; mas pode observar um comportamento normal.
LV - Como se manifestou esse transtorno?
Nash - Tive de ser internado em um hospital depois de vários episódios
de disfunção social, e afinal melhorei, mas não pude evitar um poço de
infelicidade em meu ânimo e em minha conduta.
LV - A que se refere?
Nash - Era infeliz ao me recuperar, porque a normalidade não me
deixava feliz. A loucura começa quando você descobre uma segunda
realidade em sua mente e às vezes a prefere, porque o faz mais feliz
que a normalidade. Assim, cheguei a um ponto em que eu era mais feliz
louco do que são.
LV - Mas era capaz de distinguir entre a realidade e sua ilusão?
Nash - Chega um momento em que fica difícil distingui-las e você vai
escolhendo cada vez mais a ilusória. Assim se transforma em
disfuncional.
LV - Disfuncional em que sentido?
Nash - É natural que um ser humano deva atuar com o resto do grupo:
trabalhar, observar as normas, comportar-se como todos...
LV - Há exceções.
Nash - Correto. Suponhamos que eu não trabalhe nem seja rico e diga
que ouço vozes, tenho visões e as desenho ou escrevo: o que você
pensaria?
LV - Talvez sugira que poderiam interná-lo.
Nash - Suponhamos que eu lhe diga que sou um monge enclausurado. Você
aceitaria que uma freira ou um monge em seu convento pode não
trabalhar, ter visões e explicá-las, no entanto esse monge não será
considerado anormal por isso.
LV - Certamente.
Nash - A sociedade os aceita porque, fora eles, há muitos e
suficientes outros homens e mulheres que se comportam de forma normal.
LV - A maioria tem senso comum.
Nash - Falso. O senso comum não é majoritário: por exemplo, na
Espanha e no Ocidente o cristianismo é a religião majoritária...
LV - Continua sendo, sim.
Nash - ... mas o cristianismo exige de seus fiéis fé cega em dogmas
que em caso algum poderiam ser considerados senso comum.
LV - A trindade ou a virgindade de Maria.
Nash - Hoje eu vi a obra de Gaudí: magnífica.
LV - Sem dúvida.
Nash - Apesar de não conhecer sua vida, tenho certeza de que foi
considerado um anormal, um louco.
LV - Creio lembrar-me que sim.
Nash - Van Gogh também tinha problemas para discernir a realidade de
suas visões. O que me pergunto é se a medicação que temos hoje teria
sido capaz de devolver a normalidade a Van Gogh sem privá-lo de seu
talento.
LV - ...
Nash - No entanto, o progresso teria sido difícil sem as visões de Van
Gogh ou o autismo de Newton. Newton também foi considerado um tipo
suspeito: não se casou, era estranho...
(continua aqui)
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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